Seletividade alimentar exacerbada: acabe já com ela, antes que ela acabe com você

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Por  Ana Carolina Rocha  |  Nutricionista - (CRN3 - 48025) Publicado em 18 de junho de 2019 | Atualizado em 18 de junho de 2019

Seletividade alimentar: saiba como identificar, quais os tipos e diferenças.

Conhecemos pelo menos uma pessoa que é considerada “enjoada” para comer, não importa se é criança ou um adulto, é aquela com grande restrição alimentar– e deixa a todos se perguntando o porquê de não experimentar novos alimentos.

Mas, você sabia que essa seletividade alimentar exacerbada pode ser um tipo de transtorno alimentar? Neste texto vamos conhecer o TARE, Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo, e seus sintomas.

Transtorno Alimentar – o que é?

Transtorno Alimentar é uma doença caracterizada por alterações no comportamento alimentar, que impactam negativamente na saúde do indivíduo.

Existe mais de um tipo de transtorno alimentar e suas causas são diversas – desde genéticas até influência sociocultural (como o culto ao corpo “perfeito”). Citaremos os transtornos alimentares mais conhecidos:

Anorexia

Transtorno em que a pessoa reduz a ingestão de alimentos (podendo chegar ao jejum completo) com o intuito de emagrecer até o peso que ela considera ideal.

No entanto, esta doença é acompanhada por uma distorção da própria imagem corporal, o que faz com que a pessoa não tenha completa consciência de seu corpo – se ele está adequado ou magro demais – e também existe a negação de que seus hábitos alimentares possam estar prejudicando a sua saúde. Esse transtorno causa diversas patologias secundárias, podendo levar a pessoa à morte.

Comer compulsivo

Caracterizado por períodos de ingestão de alimentos exacerbada onde o indivíduo perde o controle da sensação de saciedade. Pode ser caracterizado por uma preferência específica de grupos alimentares durante estes episódios, como a ingestão de doces, ou até de comer todos os alimentos que estão à disposição.

Outra característica é que o indivíduo com compulsão tenha gatilhos que o motive a um episódio, seja ansiedade, tristeza ou até por períodos noturnos.

Bulimia

Transtorno do comer compulsivo associado ao sentimento de culpa e consequente um método compensatório para evitar o ganho de peso – sendo o vômito e uso de laxantes os métodos mais comuns.

O bulímico pode apresentar uma preferência ou não por determinados alimentos durante os períodos de compulsão alimentar e, frequentemente, escondem de seu círculo social o seu transtorno. Assim como a anorexia, a bulimia também causa doenças secundárias, mas neste caso variam conforme o método compensatório que a pessoa adota.

Ortorexia

Compulsão por dietas e alimentos “saudáveis” (do ponto de vista do indivíduo). A pessoa se preocupa em excesso em atingir determinado modelo corporal e se torna obcecado pela alimentação, interferindo em seu convívio social.

Pode causar doenças secundárias relacionadas à psicologia e também alguns distúrbios no metabolismo caso realize restrições severas à determinados grupos alimentares (não há equilíbrio nutricional na dieta).

Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE)

É um transtorno caracterizado por uma dieta restrita à poucos alimentos, aversão à experimentar novos pratos, falta de interesse pela alimentação. O quadro se torna um transtorno à medida que a restrição alimentar desencadeie distúrbios nutricionais severos, que podem desencadear outras doenças a longo prazo.

Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo – a seletividade alimentar exacerbada

Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo é um transtorno que foi recentemente reconhecido como um transtorno mental, sendo agora mais estudado para se entender as causas e detalhes fisiológicos desta doença.

Algumas das características mais comuns deste transtorno é a de que os indivíduos apresentam uma preferência alimentar restritiva e possível aversão a determinados alimentos, seja pela cor, textura, odor ou sabor e geralmente apresentam pouco interesse pela alimentação e ausência de fome.

Na população dos Estados Unidos foi identificado que o TARE pode se desenvolver em até 5% das crianças, e aproximadamente 3,2% da população geral apresenta este transtorno. No Brasil, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, 5% da população geral possui TARE.

Este transtorno é mais comum de ser desenvolvido na infância e persistir durante a adolescência e fase adulta, mas mesmo adultos sem histórico de TARE ou outros transtornos alimentares também podem desenvolvê-lo – neste caso as causas mais associadas estão em algum trauma relacionado à alimentação (como um episódio de vômito intenso).

Crianças autistas, principalmente do sexo masculino, têm uma maior probabilidade de desenvolver este transtorno.

Apesar do indivíduo apresentar um quadro de ausência de fome, este transtorno não é igual à anorexia, e a principal diferença está que o indivíduo com TARE não tem distorção de imagem corporal.

Sendo assim, sua falta de fome não está associada ao medo de engordar (ou vontade de emagrecer), mas pela fobia de ingerir determinados alimentos.

Mesmo assim, as consequências do baixo peso em pessoas com TARE são as mesmas de pessoas que desenvolvem anorexia – desnutrição extrema, distúrbios metabólicos, menor imunidade e risco de morte por doenças secundarias.

Caso não seja tratado, o TARE em crianças pode causar atraso no crescimento e desenvolvimento (inclusive mental), e em todas as idades pode haver impacto no convívio social.

Sintomas do TARE

sintomas do tare

O diagnóstico é feito por um psiquiatra, no entanto, um encaminhamento a este profissional pode ser feito por nutricionistas, pediatras ou outros profissionais da saúde que identificarem os indícios desse transtorno.

Para diagnosticar um indivíduo com TARE, alguns sintomas são observados:

  • Seletividade Alimentar Exacerbada: essa é a característica principal deste transtorno, mas ela é caracterizada após as tentativas clínicas de se alcançar a necessidade nutricional do paciente através da alimentação não serem efetivas.

Além da restrição alimentar, algum dos sintomas apresentados abaixo também deve estar presente:

  • Perda de peso significativa: devido a incapacidade de ingestão calórica suficiente;
  • Deficiência nutricional significativa: causado pelo desequilíbrio nutricional de uma dieta com pouca variedade de alimentos;
  • Atraso no crescimento (em crianças/adolescentes): também incluso aqui um atraso no desenvolvimento intelectual, ambos causados pela desnutrição e pode ter como consequência outras doenças secundárias;
  • Dependência de suplementação nutricional: seja de suplementos orais, como também de nutrição enteral (sonda) ou parenteral (via sanguínea)
  • Interferência na vida social: quando o transtorno passa a impedir um convívio social normal, seja evitando eventos como festas e comemorações ou a sair de casa para evitar situações onde a pessoa esteja exposta aos alimentos ao qual não gosta.

Sempre procure um profissional da saúde para que o diagnóstico e tratamento seja feito adequadamente, principalmente porque transtornos alimentares podem apresentar sintomas semelhantes e o tempo e sucesso de recuperação do paciente depende de um direcionamento específico para cada particularidade de doença.

Causas do TARE

Ainda não se tem base científica suficiente para identificar as causas que levam ao TARE, mas é entendido que os fatores que o desencadeiam variam consideravelmente e incluem dificuldades físicas, sociais e emocionais do indivíduo.

Devemos levar em consideração que se alimentar é um ato importante na vida do ser humano que envolve emoções e cultura, sendo que experiências de vida podem ser determinantes para causar uma seletividade alimentar exacerbada.

Um exemplo seria quando o indivíduo apresenta uma resposta negativa à ingestão alimentar por um medo antecipando relacionado à uma experiência traumática, como um engasgo.

Existe uma idade certa para desenvolver uma seletividade alimentar exacerbada?

O TARE não tem uma idade específica para ser desenvolvido, no entanto, o diagnóstico feito para um TARE relacionado à aversão aos alimentos devido às suas características sensoriais está mais relacionado à primeira década de vida.

Já quando o desenvolvimento do TARE está relacionado à uma experiência traumática, não há uma idade com maior prevalência.

Criança que é mais exigente para comer, tem o TARE?

criança que é mais exigente para comer tem o TARE

Não necessariamente! A maioria das crianças entre 2 e 3 anos tem seletividade alimentar, e isso é comum nesta faixa etária. Entretanto, os pais devem ficar atentos caso a recusa por alimentos se estender por muito tempo e, principalmente, se os hábitos alimentares estão afetando negativamente o crescimento e desenvolvimento da criança – crianças que estão na fase normal de seletividade alimentar não tem dificuldade para ganhar peso.

Uma diferença a ser observada entre crianças normais e as que apresentam TARE é que as crianças normais sentem fome normalmente, enquanto as crianças com o transtorno não se interessam pela alimentação e é comum não sentirem fome.

Outro fator a ser levado em consideração é se a criança apresenta constantemente quadros de desnutrição e se faz uso crônico de suplementos alimentares para complementar à alimentação.

Caso tenha dúvidas se seu filho apresenta um transtorno alimentar, converse com o pediatra para que ele possa lhe orientar devidamente.

Forçar seu filho a comer não é a alternativa mais adequada para a introdução de novos alimentos, principalmente porque o ato de se alimentar envolve o lado emocional das pessoas e essa atitude pode gerar uma aversão aos alimentos ou até a uma trauma. Caso tenha dificuldade em fazer seu filho comer, procure um nutricionista que pode ajudar com alternativas para a introdução e reeducação alimentar de sua família.

Vegetarianos, veganos, tem o TARE?

Não! O TARE é caracterizado por uma preferência restrita à alguns alimentos, como por exemplo alguém que somente come arroz e frango no almoço e não inclui mais nenhuma variação em seu cardápio.

Vegetarianos e veganos, falando somente da alimentação, são pessoas que optaram por não se alimentar por produtos animais (salvo algumas exceções). Esse grupo não se enquadra nos sintomas característicos do Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo.

Tratamento

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O tratamento é multidisciplinar, envolvendo psiquiatra, psicólogo, nutricionista, além de clínico geral ou pediatra – cada um avaliará e aplicará um tratamento dentro de sua área.

Não há um protocolo específico desenvolvido para o tratamento do TARE, mas a doença é tratada com orientação nutricional, dessensibilização a alimentos que causam reações adversas, reintrodução alimentar, suplementação nutricional, terapia e, se necessário, medicamentos.

É essencial que o tratamento seja multidisciplinar pois os transtornos alimentares sempre vêm acompanhados de outros problemas de saúde, como a ansiedade por exemplo.

O paciente deve ser tratado para que não desenvolva doenças secundárias relacionadas à desnutrição.

Não somente o TARE, mas todos os transtornos alimentares têm cura e devem ter acompanhamento médico o quanto antes para evitar complicações.

Conclusão

O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo é um transtorno alimentar que foi descoberto nos últimos anos e está sendo estudado para que os pacientes sejam melhor diagnosticados e tratados.

Apesar de novo, sabe-se que este transtorno está relacionado à baixa adesão à uma alimentação variada – os indivíduos apresentam uma seletividade alimentar exacerbada.

É um transtorno mais comum de ocorrer em crianças, no entanto esse transtorno pode ser desenvolvido em qualquer fase da vida.

Caso suspeite que você ou algum conhecido tenha TARE, é aconselhável que procure um profissional da saúde para que o diagnóstico e tratamento sejam feitos de maneira mais assertiva.

Você á tinha ouvido falar sobre o Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo? Conte para nós nos comentários.

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Ana Carolina Rocha

Nutricionista

Nutricionista pela UNICAMP e pós-graduanda em Desenvolvimento de Produtos pelo Instituto Mauá de Tecnologia. Estudou um ano de nutrição na Ulster University - Reino Unido. Atua como Personal Diet na área clínica e estética e acredita que os alimentos são fonte de saúde e felicidade para as pessoas.

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